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(R)EVOLUÇÃO
Sob o véu da escuridão noturna
Caminho por ruas estreitas, desertas
Vigiado por um exército de estrelas
Em compania de alguns mosquitos
que me cobram o sangue para tanto
Subo e desço ladeiras,
Sento-me no meio-fio,
espreito o inanimado.
Não vejo e nem desejo
nenhum ser humano da minha espécie:
o homo capitalis.
Persigo a evolução.
Pesquiso em meu DNA
algo que possa me ajudar
a me desfazer da fome pelo consumo
que me acomete e à minha espécie
Talvez haja,
no nosso intrincado código genético,
um grande cifrão
ou alguns números
e os centavos separados por vírgulas.
Hei de encontrá-los e substituí-los
por notas musicais;
uma composição do Chico Buarque,
com rimas do Vinícius;
como toque final,
usarei as variadas cores de uma aquarela,
algumas pétalas de rosa vermelha,
para que haja paixão ao invés da apatia.
(E far-se-á a (r)evolução.)
Escrito por carlos às 15h17
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A pessoa que mereceu a carta abaixo é verdadeiramente merecedora da carta abaixo. Eu sempre digo a ela que tem muito a oferecer a este nosso mundo de pessoas que não enxergam. Ela escreve em um blog linkado aí ao lado, o "Para ser grande sê inteiro", e o último texto dela comprova isto. Se você for lá movido pela curiosidade que este blogueiro intencionlamente lhe desperta, não espere encontrar uma grande obra de literatura, mas o simples depoimento de uma pessoa que realmente sabe ver. Se eu não consegui convencê-la de que nos seria muito benéfico tê-la ao nosso lado neste mundo blogueiro, escrevendo a vontade de construir uma vida bem vivida, talvez vocês possam me ajudar. O link está aí ao lado, mas pra ser mais cômodo, está aqui também http://klenicy.zip.net. Trata-se, simplesmente, do amor da minha vida.
Ah! Esta carta foi escrita há pouco mais de dois anos, mas continua sendo superatual!
Escrito por carlos às 18h41
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Contemplação de uma face sem sorriso
Tua face agora contemplo.
Não mais o teu sorriso sobre o qual já falei em outra ocasião e, se um dia eu quiser falar sobre ele novamente, o farei de forma bem diferente daquele poema que te dediquei.
Hoje, definitivamente, não quero falar do teu sorriso. Até porque uma face não vive apenas de sorriso. Porque a face expressa o que há no interior das pessoas, este que é composto por emoções e sentimentos. Infelizmente, não há como, neste mundo e neste tempo, viver só de sentimentos felizes. Há muitos fatos convidativos à tristeza, à indignação, à raiva e a outros sentimentos e emoções que nos roubam da face o sorriso. E há também os sentimentos que, sendo bons, não levam o sorriso a face. Por isso resolvi hoje contemplar a tua face sem sorriso, mas também sem tristeza (é preciso esclarecer).
Para ser bem verdadeiro, comecei a contemplar-te ontem à tarde, dentro do ônibus, à caminho da faculdade, quando tua face preencheu subitamente o meu pensamento sem aquele sorriso que habitualmente lhe pertencia em minhas recordações como uma estampa. A princípio pareceu-me estranha a imagem da tua face sem sorriso. Parecia não ser você, embora fosse sua a imagem que eu via. "A Miss Sorriso com expressão séria?! Que coisa mais estranha!", pensei. Porém este foi apenas um pensamento passageiro, uma sensação fugaz; não era contemplação.
Depois percebi que a imagem da tua face sem sorriso era não uma idealização, mas uma lembrança. Era uma daquelas coisas que a gente vê mas não enxerga e que a memória responsavelmente guarda para o caso de um dia ser preciso. Foi assim que me ocorreu a lembrança da tua face sem sorriso.
Quando passei de fato à contemplação, fixei minha atenção em teus pequeninos olhos e senti uma sensação diferente - que eu agora sei que já havia sentido, mas que naquela hora pareceu-me inteiramente nova. Em teus olhos pequeninos havia um olhar tão profundo, profundeza que eu senti como na vez em que vi pela primeira vez o rio Solimões. Teu olhar era como aquele imenso rio em correnteza, rio de águas barrentas onde se esconde aos nossos olhos tanta vida: dos peixes, dos botos e de uma grande variedade de outros seres; rio de onde emana uma força inexplicável que me puxava para não sei onde na primeira vez que eu nele mergulhei e mais tarde quando vi um grupo de animados botos a passar a mais ou menos vinte metros de onde eu estava (e eu estava na água, pisando o barro mole); assim era o teu olhar.
Em tua face não havia sorriso; havia somente esse olhar arrebatador que parecia abarcar o mundo em sua profundidade. Era o mesmo olhar que eu vi você dirigir à lua num encantamento tão intenso que eu me senti também encantado, talvez mais pelo teu olhar que pela lua. É o olhar que eu vejo quando você observa seu reflexo nos meus olhos, onde eu sinto-o ultrapassando-me a retina e me vendo tal como sou por dentro. O mesmo olhar que talvez você tenha dirigido àquela gota d'água, naquele retiro; ou àquelas flores de cor salmão que você viu perto do seu colégio e que te deixaram tão deslumbrada; ou ainda àquele arrebol que você descreveu com tanta paixão que eu quase pude vê-lo também. Este olhar sensível de quem sabe contemplar porque sabe que o essencial é invisível aos olhos e só se vê bem com o coração, como disse a raposa ao Pequeno Príncipe; olhar de quem sabe conferir às pessoas e aos demais elementos que compõem a nossa vida mais do que valores materiais, valores essenciais ou mesmo espirituais e divinos. Enfim, o olhar de quem não apenas vê coisas como também é capaz de enxergá-las e entendê-las.
Há tantas palavras que eu gostaria de escrever para lhe mostrar o encantamento que este olhar exerceu sobre mim. Mas as palavras não dizem tudo. Os olhares não dizem tudo. Os gestos não dizem tudo. Mas talvez misturando um pouco de cada a gente consiga comunicar aos outros com mais clareza. Talvez um dia você chegue a entender as dimensões deste encantamento. Por enquanto somente estas palavras a você:
- Foi com o sorriso em tua face que você me atraiu primeiro, esse sorriso magnético e contagiante. Mas é na tua face sem sorriso, nesse olhar profundíssimo, no qual eu sinto um Solimões, que eu encontro a razão mais forte para continuar ao seu lado. Te amo.
De seu namorado,
Com carinho, beijos e abraços.
Categoria: Cartas de Amor
Escrito por carlos às 18h20
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Desabrochar
Foi aquela morena
- andar gracioso,
voz serena,
olhar malicioso;
Numa lua cheia
Abriu-se em flor
Escondeu a dor
E teceu uma teia
para quem quisesse
Ser presa sua
Saiu pela rua
Rumo à quermesse
Murmurando prece
Rogou não mais ser
Vazia de amores
Plena de solidão
De suas pétalas os rubores
Exalaram paixão
Nuvens em seus lábios
Prepararam tempestade de beijos
E com tantos desejos
Arrastaria mesmo os sábios
(Mas por um desses mistérios do amor
Naquela romântica noite enluarada
A flor-mulher ninguém notou.)
Categoria: poemas
Escrito por carlos às 10h56
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Vento e vela
Antes de me aventurar pelos mares revoltos do amor, antes que eu tivesse tocado pela primeira vez as velas aprumando-as no direção em que os ventos tornam-se amigos, quando eu apenas idealizava como seria esta viagem que, dizem, pode ser sem volta, eu procurava aprender com exasperação cada lição que a vida me ensinava. Muitas coisas pensei que deixaria para trás quando finalmente estivesse apto a dirigir meu próprio barco. Uma delas é esta presença que é cheia de ausência que chamamos de solidão. Quando não entendia nada ainda, porque nada havia experimentado, pensava na solidão como um extenso trampolim sobre o qual caminharia ainda por algum tempo até que precisasse correr para obter o impulso necessário ao salto que pretendesse dar. Mas agora que tenho comigo a experiência das primeiras viagens e das primeiras voltas à terra firme por não ter me adaptado à vastidão das águas, por não ter encontrado em minhas bússolas ou nas constelações o caminho para a liberdade, percebo que no mar não cabem trampolins como na piscina onde realizei meus primeiros treinos, onde aprendi, entre outras coisas, a nadar para quando fosse preciso. E senti forte em meus nervos que desconheço ainda a natureza dos ventos que sopram nas minhas velas, empurrando-as para a direção que eles bem entenderem. Senti que preciso aprender a dialogar com eles, reconhecer o tom das suas vozes, compreender no coração os seus motivos de mudança de direção, para saber como usá-los na minha viagem. E sinto que estes ventos que sopram sobre os mares do amor têm sua origem justamente naquilo de que quis me ver livre um dia: na mesma presença cheia de ausências: solidão, a própria.
Escrito por carlos às 14h59
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Reencontro
Lembras qual foi o dia em que nos conhecemos? Pois é, tenho uma leve impressão de que não foi bem naquele dia. Desconfio até que nossas almas já haviam se encontrado por aí numa dessas horas em que elas abandonam nossos corpos para nos levar além do que a nossa consciência é capaz de compreender. Arrisco dizer que talvez elas tenham, tramado nosso encontro desde quando ainda éramos feto no útero de nossas mamães. Daí, para colocarem seu plano engenhoso em prática, nos separaram por todo esse tempo com medo de que desconfiássemos da sua fugidinha. "Quem sabe se eles não se verem por uns 16 ou 20 anos eles se esquecem da nossa fuga?", deve ter dito sua alma à minha, já que você é a mais assanhada de nós dois.
Alma é coisa que não se conhece, não se pode confiar!
Eu só sei que quando te vi pela primeira vez tive a nítida impressão de que já te conhecia de algum lugar que ainda não sei bem qual.
Só pode ter sido a minha alma! Daí meu coração bandido, que não me obedece a razão e sempre vai atrás do que minha alma desvairada lhe aponta, se apaixonou por você sem medidas. Mas dessa vez não vou castigá-los. Afinal, apesar de toda a falta de juízo, eles encontraram uma pessoa simplesmente extraordinária - que é você - e puseram-na frente a frente comigo , dando-me a chance de viver essa história de amor que hoje vivemos. Agora sou feliz e estamos, como nunca havíamos ficado antes, em plena harmonia - eu, meu coração, minha alma e, agora, com a mais nova parte de mim: você que é o amor da minha vida e sem quem já nem posso mais viver.
Diz pra mim se você não teve a mesma impressão quando me viu naquele dia...
Categoria: Cartas de Amor
Escrito por carlos às 20h35
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