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    Experimentando-me


    Saudações fantasmagóricas de um ser que havia morrido para o mundo dos blogs e hoje ressurge com um novo texto, após 2 meses (!) sem postar. (risos)

     

    Como minha mente tem se ocupado muito em se apropriar das idéias dos outros, que, em outras palavras, é o que a gente faz no início de um curso superior, pelo menos no Brasil, não tenho escrito textos literários, crônicas, enfim, nada que não seja trabalho da faculdade. Pra ser mais exato, outro dia arrisquei um poema, mas ele saiu tão fraquinho, tão mofino, que o máximo que eu consegui sentir por ele foi pena. Deixei-o de lado por uns três dias depois dos quais fui lê-lo novamente para ver se era apenas impressão e consegui até ver alguma beleza poética nele, o que decorre, penso eu, daquele nosso velho e conhecido instinto coruja, né, de a gente achar bonito os filhos – no caso, os poemas – da gente. Deixemos o mau poema de lado.

     

    Nestes últimos dois meses tenho feito algumas descobertas muito interessantes do ponto de vista da informação, mais precisamente, das fontes de informação. Eu não leio jornais, não encontro tempo entre trabalho-estudo-igreja-namoro para ler jornais, aliás, para ler qualquer coisa. Se leio ainda, é por pura persistência, porque meus locais de leitura são a parada de ônibus, o próprio ônibus (quando consigo sentar, o que é raro), intervalos entre as aulas, hora do almoço no trabalho, das 22:30 – horário que chego da faculdade- às 2:00 da madrugada, no máximo. Então tenho procurado selecionar muito bem o que leio, já que, nesse tempo escasso, ainda tenho que me apropriar das idéias dos outros, como disse no início.

     

    Esse é o meu terceiro ano de assinante da revista Época. No princípio, achava fascinante esse novo mundo que a mencionada revista semanal me trazia através das suas matérias, eu que sempre quis estar mais a par do meu mundo, mas pela maldita falta do dinheiro, ou talvez seja melhor dizer, pela falta do maldito dinheiro, eu não tinha acesso a jornais e revistas. Então, quando comecei a trabalhar, uma das primeiras coisas que fiz foi assinar uma das revistas semanais de maior circulação pelo país, a dita cuja. Não que eu tivesse boas referências sobre ela. Na verdade, no mundo em que eu vivia na época, não conhecia ninguém que lesse uma revista semanal, nem mesmo a pessoa mais esclarecida com quem conversava, o meu melhor amigo que era oficial de justiça do Tribunal Regional do Trabalho aqui em Manaus. Só sabia que não gostava das outras duas revistas, a Isto É e a Veja. A primeira nunca me chamou muito a atenção, não sei dizer bem o porquê. Já sobre a segunda, eu nunca gostei do estilo dos colaboradores da tal revista, pois, muita vez, em lugar de apresentarem seus argumentos contra uma situação ou pessoa sobre a qual apresenta uma crítica ferrenha, utilizando-se para isso apenas de idéias e palavras bem colocadas, utilizam palavras que pretendem diminuir a pessoa criticada, não só no plano ideológico ou intelectual, mas como pessoa mesmo. Caso emblemático do qual me servirei como exemplo foi a invasão da reitoria da USP em maio deste ano, quando os repórteres ao descreverem o lugar ocupado, falaram em “fedentina”, chamaram os alunos de arruaceiros, amotinados, etc. Sinceramente, uma linguagem que não gosto de ler; gente não argumenta apenas com idéias, mas precisa usar de agressividade, xingar e diminuir quem critica. Pra mim, isso é falta de maturidade intelectual. Foi por isso que escolhi a Época.

     

    No início eu devorava a revista de cabo a rabo. Lia todas as matérias, comecei a me interessar por política – era o início de 2005, o último ano do primeiro mandato do Lula, pelo qual tinha uma enorme simpatia. Pouco tempo depois estoura o escândalo do “mensalão”, com o Roberto Jefferson fazendo todas aquelas declarações bombásticas, o corre-corre no governo pra saber qual o modo de reagir, de desmentir o dedo-duro, aquela confusão. E eu acompanhando tudo pelas palavras dos repórteres da Època. Hoje consigo ver como a revista tenta mostrar só um lado da moeda, a de que o governo é corrupto, de que o Brasil não se desenvolve, que este é o pior governo de todos os tempos no Brasil – e se fala isso com uma convicção que às vezes me assusta. Às vezes eu me pergunto: - Meu Deus! Será que esse povo fecha os olhos para a história? Será que a mídia é mesmo elitista e golpista como o Lula tentou mostrar no ano passado, durante a campanha da reeleição? Será que esse governo, por corrupto que seja, pode ser comparado aos das oligarquias do café e do leite do início do século XX, antes da era Vargas? Será que se fecham os olhos para tudo o que ocorreu durante o governo do seu antecessor, o FHC, onde tantos escândalos também foram cobertos pela própria mídia? E muitas outras perguntas foram surgindo na minha cabeça sobre o modo de se fazer jornalismo no Brasil. Mesmo assim eu acabei renovando a assinatura da Época. Confesso que a partir de um determinado momento eu passei a gostar mais das seções de crônicas (Ricardo Freire, Maitê Proença, Bibi da Pieve etc.) do que das matérias propriamente ditas. Este ano tenho acompanhado com prazer as séries de matérias sobre o aquecimento global, sobre a educação que dá certo no Brasil e sobre as iniciativas de ONGs que melhoram a vida das pessoas que realmente precisam. A parte política eu quase nem leio. E sabem por quê? Porque a época não é imparcial coisa nenhuma quando se trata de falar do governo. Nem ela, nem os principais veículos de informação no Brasil. E não só quando falam do governo. Até na escolha das suas pautas de reportagem mostram uma preferência elitista. Um exemplo é a grande cobertura a respeito do caos nos aeroportos. Concordo plenamente que é um problema de grande vulto, que merece toda a cobertura, pois atrapalha quem quer viajar a passeio, a trabalho, o transporte de cargas etc. No entanto eu me pergunto por que o caos nos transportes públicos urbanos – ônibus, metrô etc. – não merecem atenção dos nossos grandes veículos de informação, já que atinge diariamente a grande maioria da população. Será que é porque não é do interesse da elite e da classe média, que transita pelas ruas de carro? Acredito que sim, até que me provem o contrário.

     

    Foi procurando alternativas a este tipo de jornalismo, pois meu espírito utópico sempre acredita que nem tudo está perdido, que encontrei revistas como a Caros Amigos e a Fórum, que trabalham quase como oposição às outras citadas acima. Estou ainda avaliando se elas servem ao que procuro, mas à primeira vista me agradaram bastante, sobretudo a primeira. O tempo e a experiência confirmarão se sim ou não.



    Escrito por carlos às 15h38
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