Contemplação de uma face sem sorriso
Tua face agora contemplo.
Não mais o teu sorriso sobre o qual já falei em outra ocasião e, se um dia eu quiser falar sobre ele novamente, o farei de forma bem diferente daquele poema que te dediquei.
Hoje, definitivamente, não quero falar do teu sorriso. Até porque uma face não vive apenas de sorriso. Porque a face expressa o que há no interior das pessoas, este que é composto por emoções e sentimentos. Infelizmente, não há como, neste mundo e neste tempo, viver só de sentimentos felizes. Há muitos fatos convidativos à tristeza, à indignação, à raiva e a outros sentimentos e emoções que nos roubam da face o sorriso. E há também os sentimentos que, sendo bons, não levam o sorriso a face. Por isso resolvi hoje contemplar a tua face sem sorriso, mas também sem tristeza (é preciso esclarecer).
Para ser bem verdadeiro, comecei a contemplar-te ontem à tarde, dentro do ônibus, à caminho da faculdade, quando tua face preencheu subitamente o meu pensamento sem aquele sorriso que habitualmente lhe pertencia em minhas recordações como uma estampa. A princípio pareceu-me estranha a imagem da tua face sem sorriso. Parecia não ser você, embora fosse sua a imagem que eu via. "A Miss Sorriso com expressão séria?! Que coisa mais estranha!", pensei. Porém este foi apenas um pensamento passageiro, uma sensação fugaz; não era contemplação.
Depois percebi que a imagem da tua face sem sorriso era não uma idealização, mas uma lembrança. Era uma daquelas coisas que a gente vê mas não enxerga e que a memória responsavelmente guarda para o caso de um dia ser preciso. Foi assim que me ocorreu a lembrança da tua face sem sorriso.
Quando passei de fato à contemplação, fixei minha atenção em teus pequeninos olhos e senti uma sensação diferente - que eu agora sei que já havia sentido, mas que naquela hora pareceu-me inteiramente nova. Em teus olhos pequeninos havia um olhar tão profundo, profundeza que eu senti como na vez em que vi pela primeira vez o rio Solimões. Teu olhar era como aquele imenso rio em correnteza, rio de águas barrentas onde se esconde aos nossos olhos tanta vida: dos peixes, dos botos e de uma grande variedade de outros seres; rio de onde emana uma força inexplicável que me puxava para não sei onde na primeira vez que eu nele mergulhei e mais tarde quando vi um grupo de animados botos a passar a mais ou menos vinte metros de onde eu estava (e eu estava na água, pisando o barro mole); assim era o teu olhar.
Em tua face não havia sorriso; havia somente esse olhar arrebatador que parecia abarcar o mundo em sua profundidade. Era o mesmo olhar que eu vi você dirigir à lua num encantamento tão intenso que eu me senti também encantado, talvez mais pelo teu olhar que pela lua. É o olhar que eu vejo quando você observa seu reflexo nos meus olhos, onde eu sinto-o ultrapassando-me a retina e me vendo tal como sou por dentro. O mesmo olhar que talvez você tenha dirigido àquela gota d'água, naquele retiro; ou àquelas flores de cor salmão que você viu perto do seu colégio e que te deixaram tão deslumbrada; ou ainda àquele arrebol que você descreveu com tanta paixão que eu quase pude vê-lo também. Este olhar sensível de quem sabe contemplar porque sabe que o essencial é invisível aos olhos e só se vê bem com o coração, como disse a raposa ao Pequeno Príncipe; olhar de quem sabe conferir às pessoas e aos demais elementos que compõem a nossa vida mais do que valores materiais, valores essenciais ou mesmo espirituais e divinos. Enfim, o olhar de quem não apenas vê coisas como também é capaz de enxergá-las e entendê-las.
Há tantas palavras que eu gostaria de escrever para lhe mostrar o encantamento que este olhar exerceu sobre mim. Mas as palavras não dizem tudo. Os olhares não dizem tudo. Os gestos não dizem tudo. Mas talvez misturando um pouco de cada a gente consiga comunicar aos outros com mais clareza. Talvez um dia você chegue a entender as dimensões deste encantamento. Por enquanto somente estas palavras a você:
- Foi com o sorriso em tua face que você me atraiu primeiro, esse sorriso magnético e contagiante. Mas é na tua face sem sorriso, nesse olhar profundíssimo, no qual eu sinto um Solimões, que eu encontro a razão mais forte para continuar ao seu lado. Te amo.
De seu namorado,
Com carinho, beijos e abraços.




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Escrito por carlos às 18h20